Um dia, “zé”, aquele fulano carismático que todos conhecemos de uma forma ou de outra, acorda de manhã com uma vontade súbita de passear. Como o Sol está forte lá fora, e os bonés estão todos de molho ou demode, decide recorrer ao seu par de boxers favorito – com desenhos de sorvetes multicolores – e envergá-los orgulhosamente na cabeça.
Ao chegar café onde todos os dias costuma comer um bolo de arroz e um galão, o Sr. Miguel, após lhe aviar o “costume” pergunta-lhe o porquê de semelhante gesto. Zé revela então que o simbolismo dos boxers na cabeça remonta a toda a sexualidade metafísica produzida pela cabeça e que nos controla. O usar roupa interior, que de uma forma convencional protege as partes íntimas na cabeça é uma forma de luta contra a opressão gonadal e um grito do ipiranga moderno contra toda uma indústria focalizada em nos fazer sentir inadequados para uma relação.
Miguel pondera e repara que curiosamente este acto isolado está a atrair a atenção de muita da sua clientela, e que zé até já conseguiu meter conversa com algumas clientes, entre elas a Idalete, uma solteira trintona por quem Miguel se sente atraído, mas nunca conseguiu maior intimidade do que segredar-lhe que os croquetes que ela pediu eram d’ontem. Zé, relaxado por ter conseguido explicar o porquê dos boxers, sem ter de admitir que não lavava a sua roupa a tempo e horas, seguiu no seu passeio e transmitiu os seus ensinamentos a todas as pessoas que o interpelaram.
No dia seguinte, o boné favorito de Zé, um clássico azul com um coração e as letras NYC (“New York City” – onde nunca tinha estado) já não estava encardido, e então resolveu arrumar os seus boxers na gaveta e sair com o seu look regular.
Ao chegar à sua porta da rua é interpelado pelo carteiro, que lhe entrega a sua correspondencia com um sorriso, e comenta como foi porreiro os lagartos terem dado uma coça nos dragões. Zé não lhe consegue responder porque não consegue tirar os olhos do bonito par de trousses às bolinhas na sua testa.
A caminho do trabalho, zé passa por 2 bancas de venda de tangas ergonómicamente corrigidas para um maior conforto da testa, e boxers com suportes interiores em fibra para não estragar o penteado e no autocarro 125 ouve duas teenagers a comentar como uma boysband genérica tinha criado este fenómeno, e até tinham algumas músicas sobre isto.
Perto da entrada da fábrica está Carlos, amigo de infancia de Zé a quem este já tinha salvo a vida num acidente na ribeira, que tapava a testa, orgulhosamente, com um conjunto de ceroulas laranja. Ao ver Zé a olhar de lado para o seu estaminé, perguntou-lhe o que é q ele tinha contra os “roupainterióticos” – a tribo urbana mais cool do momento.
Zé, sem querer parecer bota de elástico disse: “ah, eu já fui um roupainterióticos quando a temática ainda era pura, agora isso é só para a carneirada imitadora. O que a malta realmente cool usa agora são palmilhas penduradas atrás das orelhas e tudo o resto é para mariquinhas com mania”.