Arquivo de Fevereiro, 2007

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Betty Lovescraft

Fevereiro 27, 2007

Toda a gente tem um hobbie. Uns têm caezinhos aos quais vestem roupinha, outros tiram fotografias de personagens estranhos, outros ainda ouvem música até ficarem surdos. Mas uma coisa que todos têm em comum – pelo menos para a maioria silenciosa de procrastinadores – é que a produtividade do hobbie aumenta quando as responsabilidades aumentam.

Sim, é uma verdade de La Palice. Suponho que a definição de hobbie inclua “actividade que agrada ao executor” e tendo em conta que muitas vezes só queremos fugir de determinadas situações, o hobbie (sim, vou repetir a palavra muitas vezes, podem entreter-se a contar – Olha! um novo hobbie!) é, por assim dizer, o escape ideal.

O maior perigo é quando julgamos que de facto poderemos viver do hobbie! E hobbies produtivos como crafts são muito dados a esse tipo de pensamentos. Mas para quem já foi, ou conhece crafteiros, sabe que a maior parte das vezes as coisas que são feitas (e bem feitas!) não têm em conta utilidade, e muito menos terão em vendabilidade, mas tão só o inigualável prazer de obra feita. No entanto, porque não passar a vida a fazer camisolas de tricot? Porque não ficar em casa a produzir em vez de ir para o emprego entediante? São perguntas que assaltam todos os dias crafteiros por todo o país e mesmo pelo mundo fora!

Eu sou uma crafteira, mas sei os meus limites e quando sonho com novelos de lã gigantescos a rebolarem, qual calhau redondo num Indiana Jones, sei que o melhor é parar.

Pumpkin Lg

E o gostinho de ver o projecto acabado…? É como um vício: “Porque é que ninguém me disse que isto ficava para sempre?”

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O Ladrão de memórias (e outros contos)

Fevereiro 23, 2007

Nasci à alguns anos numa família dos subúrbios. Cresci no ambiente super-proteccionista típico destas comunidades.

Não brinquei na rua, com os outros miúdos, até à hora do jantar. Não nadei em riachos, nem apanhei sapos. Nunca fugi de casa, mandei uma “passa” às escondidas ou apanhei uma primeira bebedeira com uma cerveja “desviada” da mercearia.

Com o tempo apercebi-me que não tinha grupo. Daqueles grupos que se formam em pequenos, de pessoas que nos acompanham para sempre e que são os nossos eternos confidentes. Aquelas pessoas com quem, apesar de terem seguido caminhos diferentes (e por vezes opostos) aos nossos, é possível estar sem nos sentirmos desconfortáveis.

 A minha vida sempre foi relativamente estável. “No alarms and no surprises”.

E com o tempo e as primeiras convivencias de escola nos primeiros anos de pré-puberdade finalmente reparei que me tinha afastado do caminho típico. Não sentia aquele impeto por me afirmar, aquela necessidade de quebrar barreiras que leva muita gente à já conhecida “idade da parvoeira” e isto, apesar de me ter poupado algumas figuras tristes, vedou-me também até bem mais tarde daquelas escapatórias para as discotecas e outras aventuras próprias dessa idade.

Foi nesta altura que descobri uma faceta nova em mim que até então desconhecia.

Os meus colegas chegavam e partilhavam histórias do que tinham feito, com quem tinham estado, … – e eu sorvia tudo sofregamente, e guardava cuidadosamente cada promenor, como se algo de precioso se tratasse. 

 Serviam-me deles e das suas histórias só para eu “viver na minha imaginação”, pelos outros, as experiências que não podia, e não tinha com quem, ter.

E com o tempo fui cultivando este hábito. Porquê “perder” tempo quando podia apenas ouvir os relatos depois e vivê-los na minha cabeça? Imaginar cada movimento, cada aroma, cada jogo de luz…

A realidade deixou de me interessar e tornou-se mesmo quase entediante. Normalmente é bastante menos polida do que a imaginação, com todos os seus defeitos e precalços, e com isto tornei-me bastante impaciente e de saturação-fácil para com certos ambientes e pessoas. Ainda hoje muitas vezes luto contra estas sensações quando sou “forçado” a socializar, tudo coberto por sorrisos amarelos qb.

Aposto que estão à espera de um volte-face neste post. Uma moral que revele que o ser normal é muito melhor. Talvez qualquer coisa “Trainspotting-esca”, com um Choose Life! entusiastico pelo meio.

 Mas hoje não…

Talvez no futuro.

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Cada fim é um início

Fevereiro 23, 2007

Estou farto de blogs, talvez pelo meu feitio.

Por sentir uma obrigação formal de dar continuidade ao que criei, criando-me muitas vezes uma ansiedade de arranjar conteúdos para partilhar com os restantes amigos do binário, de retirar algo de extremamente interessante do meu dia-a-dia que justifique uma, de outro modo patética, existência.

Assim sendo nasceu este espaço. Encerrei todos os outros sitios por onde escrevia para juntar-me a este novo projecto, onde realidades com pitadinhas de ficção se cruzam com ficções com pitadinhas de realidade.

Quais são quais não vos sei dizer, ou não quero. É bom que alguma coisa não seja gratuita, neste mundo de facilitismos a que nos entregamos de alma e coração.

Ficam então formalmente convidados a deixar-se ficar, a beber mais um copo. Pode ser uma experiência interessante, e lembrem-se:

 Teremos sempre Paris.