Acabou.
Vou sentir a tua falta agora que me deixaste, sem possibilidade de regresso – como disseste.
Falta do teu sorriso fácil, da forma bon vivant como encaravas a vida, da maneira como tornavas pequenas coisas em cruzadas pessoais de grandes proporções. Até o teu ressonar leve ao meu lado a cada noite e a maneira rabugenta como reagias se por alguma razão te acordava (ou tentava acordar).
Mas acima de tudo vou sentir a falta do teu cheiro, do teu perfume alfazema que parecia impregnar tudo o que mexias ou todos os sítios por onde passavas.
Cada vez que eras bruto comigo, nas tuas intermináveis crises existencialistas, ou que davas facadinhas na nossa relação (eu sei que davas – mas agora de que importa?) bastavam algumas sensações olfativas para apaziguar os meus animos. Uma pequena inalação e a guerra, que parecia prestes a rebentar, transformava-se em paz.
Lembro-me perfeitamente daquela viagem que fizeste, “de serviço” como ma justificaste, e de como agonizei na cama, a sentir o teu aroma cada vez mais ausente. Cada vez mais diluído noutros que nada para mim significavam, podendo apenas esperar que voltasses para o reforçar. Fechar os olhos e imaginar-te perto de mim outra vez.
Essa foi das piores dores da minha vida. Mas agora, já nem a imaginação me vale.
Sei que nunca mais voltarás para mim, porque não te mereço, talvez…
O mundo torna-se mais pálido. Já nada me interessa muito aqui. As pessoas? As cores? As flores (com o seu oculto significado de renovação – nada mais do que cinismo de hoje e de sempre)?
Trocava tudo isso por uma última inalação da TUA alfazema (tentei procurar a tua colónia, mas sem ti era apenas o que era – uma mezcla de extractos vegetais com alcoól sem qualquer significado).
Olho em volta.
Acho que mais vale ir-me embora. Estar aqui parada não me está a fazer melhor, nem vai adiantar nada.
Inspiro uma última vez, tentando detectar alguns traços de ti.
Inspiro uma última vez numa tentativa de te levar comigo, de levar comigo esse gás que te tornaste na minha memória.
Inspiro uma última vez, e volto as costas ao forno crematório.



