Arquivo de Abril, 2007

h1

Volatilidades

Abril 19, 2007

Acabou.

Vou sentir a tua falta agora que me deixaste, sem possibilidade de regresso – como disseste.

Falta do teu sorriso fácil, da forma bon vivant como encaravas a vida, da maneira como tornavas pequenas coisas em cruzadas pessoais de grandes proporções. Até o teu ressonar leve ao meu lado a cada noite e a maneira rabugenta como reagias se por alguma razão te acordava (ou tentava acordar).

Mas acima de tudo vou sentir a falta do teu cheiro, do teu perfume alfazema que parecia impregnar tudo o que mexias ou todos os sítios por onde passavas.

Cada vez que eras bruto comigo, nas tuas intermináveis crises existencialistas, ou que davas facadinhas na nossa relação (eu sei que davas – mas agora de que importa?) bastavam algumas sensações olfativas para apaziguar os meus animos. Uma pequena inalação e a guerra, que parecia prestes a rebentar, transformava-se em paz.

Lembro-me perfeitamente daquela viagem que fizeste, “de serviço” como ma justificaste, e de como agonizei na cama, a sentir o teu aroma cada vez mais ausente. Cada vez mais diluído noutros que nada para mim significavam, podendo apenas esperar que voltasses para o reforçar. Fechar os olhos e imaginar-te perto de mim outra vez.

Essa foi das piores dores da minha vida. Mas agora, já nem a imaginação me vale.

Sei que nunca mais voltarás para mim, porque não te mereço, talvez…

O mundo torna-se mais pálido. Já nada me interessa muito aqui. As pessoas? As cores? As flores (com o seu oculto significado de renovação – nada mais do que cinismo de hoje e de sempre)?

Trocava tudo isso por uma última inalação da TUA alfazema (tentei procurar a tua colónia, mas sem ti era apenas o que era – uma mezcla de extractos vegetais com alcoól sem qualquer significado).

Olho em volta.

Acho que mais vale ir-me embora. Estar aqui parada não me está a fazer melhor, nem vai adiantar nada.

Inspiro uma última vez, tentando detectar alguns traços de ti.

Inspiro uma última vez numa tentativa de te levar comigo, de levar comigo esse gás que te tornaste na minha memória.

Inspiro uma última vez, e volto as costas ao forno crematório.

h1

Páscoa!

Abril 9, 2007

Sou só eu que tenho a impressão de que a Páscoa está a tomar maiores proporções do que tinha? Não. Conheço mais alguém que também acha.

Provas concretas? Mais concreto do que receber mensagens (muitas!) sobre coelhinhos, ovos, amêndoas e desejos de bom dia comemorativo, acho que não há.

Depois houve os ovos de chocolate de tudo quanto era herói da criançada, desde a Kitty até à Estrelinha (!). E, claro, postos à venda e publicitados pelo menos um mês antes do dia que marca o final da Quaresma.

Na Quaresma sim, deviam enviar-se mensagens de incentivo ao jejum num jeito de “Aguenta aí que já só faltam 29dias 15 horas 23 minutos e 6 segundos”. Mas isso merecia outro texto só dedicado ao assunto de quantos dos que comemoram a Páscoa com fervor realmente jejuam durante os 40 dias anteriores…

Voltando ao assunto, desta vez resolvi deixar-me ir com a corrente, para contrariar o meu “eu do contra”. Não recebi nenhum ovo (o da Pucca é que tinha sido…), mas entrei no espírito. A Páscoa o que é afinal? É um renascer. É um começar de novo depois da penitência pelos pecados cometidos no passado. É, no fundo, um momento de viragem na vida de qualquer cristão, qual ovinho que eclode e deixa sair da casca um lindo pintainho (ou lagartinho, como preferirem…).

Por isso, e como não costumo fazê-lo no início do novo ano, decidi fazer uma resolução no início desta nova etapa que é: a partir de agora vou fazer as resoluções de ano novo na Páscoa! Parece-me mais lógico. Temos 40 dias para pensar o que precisamos de mudar e depois disso comemos chocolates até rebentar, mas com resoluções feitas com ponderação e sem alcool à mistura.

Só tenho pena de não ter tido tempo para me lembrar de outras resoluções… Mas outras Páscoas virão. Afinal, Páscoa é quando o homem quiser!

h1

Wishlist

Abril 2, 2007

Ontem foi dia 1 de Abril.

Não contei mentira nenhuma. Ninguém me enganou a mim. Aliás só me apercebi que dia era à noite quando já não havia muito a fazer.

Parece ser um facto sem importância, mas a verdade é que a minha criança interior (ou o que restava dela) foi oficialmente declarada morta. Estou prestes a fazer um quarto de século e parece-me que afinal tenho um século e um quarto. Um quarto escuro onde me escondo. Um quarto que me aconchega e me protege, mas que me impede de ver o mundo lá fora. Enfim um quarto interior sem uma vista nem uma janela indiscreta.

Estou a precisar de recuar no tempo. Recuar até um momento do qual já não tenho memória. E recomeçar. Aprender tudo outra vez. Experimentar tudo outra vez. A cada dia ser uma coisa nova e ter um objectivo novo. Querer ir à lua. Prometer um banquinho num jardim.

Mas é complicado, certo? Só um pouquinho…

Por isso, neste meu aniversário gostava de receber um parque para poder brincar à vontade e se cair tenho a areia que me protege. E luz, muita luz e ar puro.

Just a playground please…

img_0327-1.jpg