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O Ladrão de memórias (e outros contos)

Fevereiro 23, 2007

Nasci à alguns anos numa família dos subúrbios. Cresci no ambiente super-proteccionista típico destas comunidades.

Não brinquei na rua, com os outros miúdos, até à hora do jantar. Não nadei em riachos, nem apanhei sapos. Nunca fugi de casa, mandei uma “passa” às escondidas ou apanhei uma primeira bebedeira com uma cerveja “desviada” da mercearia.

Com o tempo apercebi-me que não tinha grupo. Daqueles grupos que se formam em pequenos, de pessoas que nos acompanham para sempre e que são os nossos eternos confidentes. Aquelas pessoas com quem, apesar de terem seguido caminhos diferentes (e por vezes opostos) aos nossos, é possível estar sem nos sentirmos desconfortáveis.

 A minha vida sempre foi relativamente estável. “No alarms and no surprises”.

E com o tempo e as primeiras convivencias de escola nos primeiros anos de pré-puberdade finalmente reparei que me tinha afastado do caminho típico. Não sentia aquele impeto por me afirmar, aquela necessidade de quebrar barreiras que leva muita gente à já conhecida “idade da parvoeira” e isto, apesar de me ter poupado algumas figuras tristes, vedou-me também até bem mais tarde daquelas escapatórias para as discotecas e outras aventuras próprias dessa idade.

Foi nesta altura que descobri uma faceta nova em mim que até então desconhecia.

Os meus colegas chegavam e partilhavam histórias do que tinham feito, com quem tinham estado, … – e eu sorvia tudo sofregamente, e guardava cuidadosamente cada promenor, como se algo de precioso se tratasse. 

 Serviam-me deles e das suas histórias só para eu “viver na minha imaginação”, pelos outros, as experiências que não podia, e não tinha com quem, ter.

E com o tempo fui cultivando este hábito. Porquê “perder” tempo quando podia apenas ouvir os relatos depois e vivê-los na minha cabeça? Imaginar cada movimento, cada aroma, cada jogo de luz…

A realidade deixou de me interessar e tornou-se mesmo quase entediante. Normalmente é bastante menos polida do que a imaginação, com todos os seus defeitos e precalços, e com isto tornei-me bastante impaciente e de saturação-fácil para com certos ambientes e pessoas. Ainda hoje muitas vezes luto contra estas sensações quando sou “forçado” a socializar, tudo coberto por sorrisos amarelos qb.

Aposto que estão à espera de um volte-face neste post. Uma moral que revele que o ser normal é muito melhor. Talvez qualquer coisa “Trainspotting-esca”, com um Choose Life! entusiastico pelo meio.

 Mas hoje não…

Talvez no futuro.